Uma indústria resistente à mudança
A siderurgia carrega o peso de ser uma das atividades industriais mais difíceis de descarbonizar. Desde a década de 1850, quando o processo Bessemer foi comercializado, a rota básica pouco se alterou: minério de ferro sólido é fundido em altos-fornos a temperaturas extremas, reagindo com gases derivados do carvão para remover o oxigênio. O resultado é um metal que ainda precisa de refino adicional antes de virar vergalhão, chassi de automóvel ou viga estrutural.
Essa dependência do carvão mineral faz o setor responder por cerca de 7% das emissões globais de dióxido de carbono — volume equivalente ao da indústria da moda. Margens apertadas e a longa vida útil dos fornos tradicionais tornam investimentos em rupturas tecnológicas arriscados e lentos de justificar perante acionistas.
Uma rota mais curta e menos poluente
Laureen Meroueh, fundadora da Hertha Metals, propõe encurtar o caminho. O forno desenvolvido pela startup transforma minério de ferro diretamente em aço líquido refinado em uma única etapa, eliminando a necessidade de unidades separadas de redução e refino. O carvão dá lugar ao gás natural, o que, segundo a empreendedora, reduz as emissões em pelo menos metade e derruba os custos operacionais em aproximadamente 25% frente ao modelo convencional.
“Há enorme valor em reduzir o tamanho desse sistema de produção”, avalia Iryna Zenyuk, diretora do Centro Nacional de Pesquisa em Células a Combustível da Universidade da Califórnia em Irvine. “Essas instalações são massivas, ineficientes e demandam quantidades enormes de energia. Mesmo que a ganho venha apenas da eficiência energética, já é um grande passo.”
Trajetória atípica, visão de longo prazo
Aos 12 anos, Meroueh ingressou em um programa piloto que lhe permitiu cursar disciplinas de nível universitário na Florida Atlantic University no lugar do ensino médio tradicional. A exposição precoce a cálculo e energia das ondas oceânicas moldou sua inclinação pela engenharia. Fora das salas de aula, horas passadas escalando árvores e surfando cultivaram uma conexão visceral com o meio ambiente. “Não sei como alguém pode não se sentir compelido a tentar proteger isso”, resume.
Formada em engenharia mecânica pelo MIT, onde concluiu o doutorado, ela liderou uma startup de hidrogênio verde antes de fundar a Hertha em 2022. Filha de imigrantes libaneses e criada em família de empresários, viu o empreendedorismo como caminho natural. “Ver como é comum dar o salto para abrir o próprio negócio me fez pensar: ‘Isso é normal'”, conta, em videochamada a partir da planta piloto em Conroe, Texas, ao norte de Houston.
Escala modesta, eficiência de capital notável
A unidade texana produz uma tonelada métrica de aço por dia — marco considerado significativo no setor. “Uma tonelada por dia é uma métrica grande para siderurgia”, diz Rajesh Swaminathan, sócio da Khosla Ventures, uma das investidoras. Até julho de 2026, a empresa havia captado cerca de US$ 20 milhões. Swaminathan destaca que concorrentes precisaram de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões para alcançar volumes muito menores.
Pragmatismo em vez de espera pelo ideal
Enquanto outras iniciativas de “aço verde” apostam no hidrogênio como redutor do minério — rota que poderia zerar emissões no futuro —, a Hertha assume o uso contínuo de combustíveis fósseis no presente para manter a competitividade de custo. O equipamento atual, porém, foi desenhado para permitir a troca por hidrogênio sem grandes alterações de hardware, quando esse insumo se tornar economicamente viável.
Os planos de expansão preveem uma nova fábrica ao lado da piloto, com capacidade para 10 mil toneladas métricas anuais de aço de alta pureza, operando a pleno até o fim de 2027. Para 2030, a meta é atingir 500 mil toneladas anuais com a adição de um terceiro sítio. Ainda é fração ínfima dos cerca de 80 milhões de toneladas que os Estados Unidos produzem por ano, mas Zenyuk ressalta: “Produzir até mesmo uma tonelada métrica já é uma conquista.”
A pergunta que move o negócio
Para Meroueh, a demanda mundial por aço não vai desaparecer. A questão que a move é outra: “Como podemos ser mais inteligentes na forma como fabricamos as coisas… de modo que também não nos prejudiquem no longo prazo?” A resposta, ela aposta, está em simplificar a química, encurtar a cadeia e aceitar transições parciais — desde que tragam ganhos reais de emissões e custo já na próxima década.
